sexta-feira, 14 de junho de 2013

Conto: "Morte asséptica", por Bruno Cabral.



Seus olhos abrem e tudo que consegue enxergar é escuridão. Depois de tanto tempo acordando às duas da manhã é normal ter se habituado a despertar e não enxergar mais que seus dedos se movimentando lentamente. O carcereiro bate na cela entregando-lhe o café da manhã, antes que ele tenha tempo de fazer com que sua vista se acostume  ao faixo de luz que passa pelo espaço em que ele deposita a comida. Durante 14 anos John despeja café com leite, 6 bolachas e uma maçã pelo mesmo espaço na porta e resmunga o mesmo 'Bom Dia' sonolento de quem preferiria estar em qualquer outro lugar que não fosse enjaulado com aquele bando de animais. Este é todo o barulho que ele escutará nas próximas 5 ou 6 horas: o barulho dos pratos de plástico sendo depositados no fundo das celas e o 'Bom Dia' cada vez mais longínquo de John.



As Tvs ligam às 7 e os canais abertos mostram imagens de pessoas que ele conhece, não, reconhece. A apresentadora do programa de variedades, o jornalista dos noticiários matinais.... Ele possui uma rotina com eles: vê as informações rasas sobre economia mundial que lhe são passadas, consegue prever os comentários do jornalista sobre a corrida presidencial. Ele é republicano. Sabe dizer como fazer para que uma alface não fique murcha ou como limpar a tela de um computador mesmo sem nunca ter visto um. Computadores eram caros e pouco funcionais na época em que fora preso, brinquedos que só pessoas muito ricas podiam ter, vendidos entre os sorrisos amarelados de um Bill Gates ainda jovem, gritando por um futuro de revista em quadrinhos. Há 20 anos seria difícil imaginar que todos teriam computadores ou que seu futuro estivesse atrás das grades de uma prisão em Memphis.

A cela é aberta com um clique automatizado que mostra a hora do banho de sol. Simon se encaminha para fora da cela enquanto vê outros homens vestidos de azul se espreguiçando enquanto saem de seus quartos. Atravessam o corredor estreito ponteado por guardas aqui e ali, e antes de atravessar o portão passa pela primeira revista do dia; procuram por facas improvisadas, giletes ou qualquer outro objeto cortante, esperando achar algo que vá 'ferir a integridade física' de algum parceiro seu durante o banho de sol. Não há nada.

Atravessa o portão e entra na grande sala onde os outros presos já caminham de um lado a outro. O banho de sol não tem sol, na verdade nem fica do lado de fora é apenas outra cela, muito grande.Vai à parede do canto, a que faz desenhos de luz no chão, por entre as grades da grande sala. Deixa seus olhos se adaptarem à luz cortante que tenta o cegar. De lá enxerga um muro e um arame farpado em cima dele. Ri da puta ironia que é ter uma janela da qual só se enxerga uma parede de concreto cheia de musgos, Atrás dessa ele sabe que há mais duas, que formam o labirinto pelo qual ele entrou 19 anos atrás, em cada parede uma porta e em cada porta um alarme que soa ensurdecedor toda vez que um funcionário demora mais tempo que deveria para atravessá-la.

Dentro do salão observa pequenos grupos conversando sobre TV em geral, um fala esperançoso sobre cozinhar algo que viu no programa de variedades para seu filho e esposa, outro sobre o jogo de basquete desta noite entusiasmado, mas quando lembra que a vida no presídio de Memphis se encerra às 2 da tarde, horário em que todos se recolhem para suas celas para dormir todos se calam, como que lembrando que não estão em suas casas e portanto não podem escolher por suas próprias vontades. O grupo se dispersa rapidamente. Julian (latrocínio) acena de um banco improvisado chamando para que jogue pôquer com seus colegas, ele responde que seus cigarros acabaram e que não vai arriscar apostar um último maço.
Na porta próxima ao outro pavilhão pode observar alguns de seus companheiros se tatuando em rudimentares máquinas feitas com pedaços de canetas bic e elásticos, os presos esfregam as tinturas pretas na pele dos homens criando marcas permanentes: nomes de mulheres, desenhos mal traçados e tentativas de tribalismos, Simon não tem tatuagens, não por preconceitos, mas por não querer que sua pele fique marcada por algo que fez na cadeia, se algum dia conseguisse sair dali apagaria todos os rastros que o fizeram perder metade de sua vida naquele lugar. David (sequestro) ignora a dor como se pudesse passar o dia todo tendo uma agulha perfurando sua carne, ele escreve o nome da filha embaixo de uma rosa já de traçados verdes.
Todos deixam o banho de sol pontualmente ao meio dia para acompanhar com o entusiasmo de um jogo da liga de baseball à entrevista com o novo candidato à presidência, ouviram dizer que ele era contra a pena de morte. Simon ouve suas propostas para transporte, segurança, economia e educação enquanto espera que aquele homem diga que é contra o corredor, na esperança de que aquele desconhecido metido num alinhado terno azul possa tranquilizar sua conscência a ponto de conseguir dormir, atividade desconhecida desde a última terça-feira quando sua apelação foi negada e ele foi condenado à injeção letal.


Ele percorre o caminho labiríntico com uma leve mochila nas costas. Uma escova de dentes gasta, uma revista de sacanagem, uma roupa sobressalente e os velhos tênis que já não cabem em seus pés há muitos anos. O portão estala e ele vê John, o funcionário que serviu sua comida por todos esses anos chegando para trabalhar, ele lhe dá um sorriso incerto, um desses sorrisos de quem não está exatamente acostumado à demonstrar felicidade; John demora para notar que o homem vestido de forma básica é.... como é mesmo o nome dele? 897. É 897, graças a aquele maldito liberalista mais um assassino era solto agora. Que ele coma a filha do presidente, ou assalte um banco agora que pode, pensa carrancudo enquanto passa pelo portão de aço que se fecha atrás de si.
Não há mais ninguém ali, Simon agora é um homem livre, embora não saiba o que fazer com sua liberdade.
Ele pega um ônibus e salta no centro da cidade, faróis automotizados fazem com que o trajeto seja lento. Ele caminha até um café e faz um pedido. Sua caneca vêm acompanhada com a porção de torradas e uma dessas manteigas individuais e uma faca à esquerda do prato. Simon sinaliza para que a garçonete se aproxime, uma moça dócil. De sorrisos fáceis, ela o chama de grandalhão enquanto enche a caneca de café novamente.

Na pequena pensão Simon acorda subtamente, ele dormiu escostado na parede virado para porta e espera John depositar seu café da manhã no buraco da porta quando percebe que não está mais na cadeia. Vira para a janela e percebe que ainda é escuro. Nos últimos dias tem acordado entre 4 e 10 da manhã, nunca vai conseguir se acostumar com essa merda de horário. Não se esforça em dormir mais um pouco, não vai conseguir. Levanta-se e pega o casaco para dar uma volta. Acende a luz e fita o relógio marcando 3 da madrugada. Ótimo, estou ainda mais desrregulado – ele pensa.
Só deve entrar no trabalho arrumado pela assistência do governo às 8, por isso continua andando sem nenhum rumo certo. Não dá pra se encaminhar a lugares que não se conhece. Ele não pode visitar ninguém esse horário, não que haja alguém que ele pudesse encontrar. As pessoas seguiram em frente, ele deu uma pausa e só conseguiu voltar agora, não há ninguém esperando por ele. Encontra um bar com uma mulher gorda e entediada no balcão. Tem um ar antigo, um lugar com mesas ainda em madeira, nada desse plástico em diferentes cores que os jovens gostam, o chiado do velho rádio mal deixa perceber a voz de veludo do Elvis cantando qualquer coisa sobre amor. No bloquinho ela anota o café que ele pede. No presídio só serviam café com leite e ele se pega sorrindo da possibilidade de poder tomar um café puro.

Ele não dorme e seu coração bate mais forte à medida em que percebe os minutos avançando. A percepção do tempo correndo é quase física. Revirar-se na cama que range não ajuda o tempo a passar e seus exercícios para manter a mente vazia não ajudam muito. O baque do prato caindo no fundo da cela o desperta de seus pensamentos e ele não sabe dizer se esteve sonhando que estava acordado ou se tinha perdido a razão enquanto acordado e passava apenas a existir. A TV não lhe traz nada de novo, a mesma apresentadora vai lhes ensinar hoje a limpar telas de computadores. Como as pessoas não percebem que essa mulher está esse tempo todo falando sobre as mesmas coisas? Não sei. A previsão do tempo indica mais um dia ensolarado no verão americano, “Uma sexta-feira pra sair e fazer um picnic com a família.”. Os americanos não são mais uma nação de picnics, moça. Não se toma mais coca-cola em parques, o vendedor de cachorros quentes tem uma arma pra esmagar os seus miolos na gaveta em que guarda o ketchup e a mostarda se você tentar roubá-lo e sua família está ocupada demais fazendo dinheiro para dar passeios ao ar livre.

As celas se abrem e ele não quer sair, não consegue entender a diferença entre andar em circulos numa cela grande ou em ficar sozinho na sua, mas ele não tem escolha, sai para revista. Braços abertos, pernas abertas, a mão do guarda entra num dos bolsos do macacão azul e vai mais fundo, mais fundo, procurando objetos cortantes que possam... foda-se não há nada. Não há nada. Todos o olham estranho quando ele entra na sala e parecem querer dizer palavras que o animem, mas não existem consolos para uma morte programada. Julian pergunta sobre o pôquer, ele não tem cigarros. “Você pode pagar amanhã”- ele responde sem nenhum sinal de rubor. Vem agindo assim nas últimas semanas porque não consegue lidar com a imprevisibilidade que corta a rotina que têm há anos. Acordar, ver TV, café, banho de sol, dormir. O sol brilha alto indiferente ao fato da iminente morte de Simon, e ele ri, ri porque Hollywood o ensinou que sempre que as pessoas morrem há chuva. Uma chuva fina, que envolve a alma das pessoas em um humor pessimista. Que há uma chuva fina que impede o dia de brilhar e ensina às pessoas que quando alguém morre deve haver alguma espécie de luto, mas isso não é verdade e o sol continua a criar os desenhos no chão da sua cela. A percepção de tempo se esvaindo o pega novamente num ataque de pânico e ele sente vontade de gritar, de brigar com os carceireros, de enfiar uma faca na própria garganta a fim de provar que só ele pode escolher o horário em que morre. Mas não toma nenhuma dessas atitudes, apenas imagina como seria se as tomasse, como que respirando fundo, arranjando fôlego pra estar por mais algumas horas. Na saída da ampla cela David fita em seus olhos uma expressão melancólica, um aviso de que gostaria de poder ajudá-lo por entre o rosto esverdeado de quem não tem passado bem últimamente. Náuseas, febre, vômito, sinais de uma hepatite pega em um procedimento sem esterilização que o levará à morte ao mesmo meio-dia da semana que vem. E que teve início quando resolveu homenagiar a filha na tatuagem abaixo da rosa grafada em seu braço esquerdo.

A sala de espera está vazia e só o barulho do relógio no corredor cor de creme habita seus pensamentos, poderia rever sua vida, fazer uma retrospetiva das coisas boas que viveu, e se lembra de muitos acontecimentos, eventos demais. Ficar todo esse tempo longe do mundo tirou dele a capacidade de saber o que realmente são lembranças e o que não passam de falsas memórias.

John limpa o chão do corredor da morte com um esfregão velho, presídios não costumam receber muita verba. Faltam 10 min para que se encerre seu dia de trabalho. A limpeza dessa ala é sua última tarefa, ele usa o esfregão com pouca força, a ala nunca foi usada de verdade e no chão paira pó de falta de uso, varrendo perto da porta metalizada ele escuta o baque e o grito de alguém dentro da sala. Aproxima-se e vê dois guardas domando o homem que foi o primeiro condenado à morte da
prisão de Memphis em mais de 37 anos. Simon é seu nome talvez, ele é amarrado na cadeira e implora para que não façam isso. O médico aplica a injeção no braço do homem de 40 e poucos anos que aos poucos desiste da vida. John olha para a sala onde ninguém parece feliz em retirar mais um “mal elemento da sociedade”. O relógio mostra 14:01, mas John apesar de com o expediente no fim não consegue mover os pés para fora do presídio que embora apresente um homem recém-falecido do outro lado da porta de metal já exala um cheiro de morte nauseante. Cheiro de morte asséptica.

Fonte: http://www.cafeeanalgesicos.com.br/2012/09/conto-morte-aceptica.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário