terça-feira, 25 de junho de 2013

O Vil MetalTimão


Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso!
(...) Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do covarde, valente.
Ó deuses!, por que isso?
O que é isso, ó deuses?
(...) [O ouro] arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabeça dos íntegros.
Esse escravo dourado ata e desata vínculos sagrados; abençoa o amaldiçoado; torna adorável a lepra repugnante; nomeia ladrões e confere-lhes títulos, genuflexões e a aprovação na bancada dos senadores.
É isso que faz a viúva anciã casar-se de novo (...).
Venha, mineral execrável, prostituta vil da humanidade (...) eu o farei executar o que é próprio da sua natureza.

William Shakespeare, em "Timão de Atenas"


terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre os valores da sexualidade em nós Humanos.


Oh, grande Zarathustra,
concordo contigo quando falavas que nossos espíritos são mais
"Tu deves" que "Eu quero".
Apenas obedecem o "Tu deves"
e não dizem mais "Eu quero",
até os tempos atuais.
Não que a minha não o faça,
mas tenho consciência e
luto com todas minhas forças contra isso!

Nós não conseguimos entender ainda que as nossas carnes e mentes foram modeladas
pela benevolência de um Deus patriarcal e inescrupuloso.
Por favor, CALEM MEU SARCASMO!

Queria poder dizer:
somos todos rosas...
Bonitas, cheirosas, sinceras,
mas que possuem também seus espinhos.

Eu só queria um mundo onde as mulheres se impusessem ao querer saciar seus desejos,
enquanto que os homens pudessem apresentar-se socialmente como delicados por natureza.
Por favor, alguém responda: há alguma coisa de errado nisso?!?


Quero aqui deixar bem claro que sou totalmente contra a violência à mulher.
Embora também sou contra à docilidade das mulheres de porcelana,
fabricadas à base da chibata patriarcal,
as quais não conseguem se impor pois pertencem à natureza das almas dóceis.

É óbvio,
não nego que,
em contrapartida,
o Homem mais que abusa disso,
por pertencemos a uma sociedade modelada em valores patriarcais seculares.

Por pensar assim, me imagino (às vezes) mais feminista que algumas mulheres que dizem  que são
 e querem subjugar os Homens nos estereotipando como iguais.

Mesmo assim as forças dos valores masculinos sempre estão me cercando,
e eu não sua perfeito: também sou carne e mente modelados.
A minha luta interna é sempre acirrada para que os valores machistas não me possuam,
como é visto de forma natural para os outros varões.
Luto comigo mesmo pelo "Eu quero", e não pelo "Tu deves".

Há contradições em todos os lugares.
Em mim e nos outros.
É algo inerente ao ser humano.

Conheço mulheres de gerações modeladas ao estilo tradicional do ser,
ou seja, machista, que privam a mulher à cozinha, e escondem o livro.
O único livro que ela não escondem é a Bíblia: o livro do "Tu deves" mais
arcaico do Mundo Ocidental.

Os valores machistas pregam ainda que as mulheres são como reencarnações da santa Maria,
e devem morrer virgens em seu cárcere espiritual "Donas de casa".
e ainda por cima, a grande maioria acaba por perecer em sangue podre.

Pregam também que o lugar que mais deve dar orgulho ao homem é o prostíbulo,
ideologia legitimada pelo patriarca familiar, núcleo e base desse tipo de poder.

As convicções raciais e sexuais são um tanto dúbias: os negros somente podem e devem ser seus serviçais e um Homem de verdade não pode ter amigas, só amantes, afinal de contas:
"um homem com muitas amigas é suspeito, deve ser um doent... quer dizer... afrescalhado."
O valor exacerbado à beleza e à juventude também são importantes.
No presente momento, lembro-me daquela famosa frase do senso comum:
"Não é apenas mais um rostinho bonitinho..."

Mas não foram esses valores promulgados por um sistema de ideais platônicos
dizendo que "há um padrão a ser seguido"?
Vossas respostas são "SIM", meus irmãos.

Creio que já ilustrei suficientemente sobre os valores machistas,
embora sei que há muito mais, de onde isso vem.

O senso comum de nossa sociedade prega:
Não existe palavra tão depreciativa como "puta",
e quando usada no masculino, tão 'honrosa'.
Não existe palavra tão depreciativa como "viado",
quando usada para desmoralizar verbalmente os heterossexuais do grande rebanho.

Os homossexuais antes de ontem,
eram julgados como aberrações que deveriam perecer em sangue podre.
O mesmo com a era da Liberdade Sexual.

Os homossexuais ontem,
foram julgados pelo Homem ocidental moderno como os coitados que devem ser aceitos.

Os homossexuais  hoje,
são julgados doentes que devem ser adestrados pela Ordem Divina.
Mal conseguem perceber, esses homens da Ordem Divina que, ao fazerem isso
são eles mesmos os verdadeiros doentes de espírito.

Não há nessa existência doença pior que essa,
pois ela transforma o Homem em desprezível
aos olhos de quem consegue o ver.

Somos seres de valores tão estúpidos, que temos vergonha até de nossas próprias genitálias...
Que são o que representa importante grau na criação de nossas subjetividades.

Afinal de contas, que fabrica isso?
Essas certezas tão bem boladas,
que engana até aqueles que se dizem ser os mais Sábios?

Mesmo assim, creio que ainda não sou Boca pra muitos Ouvidos,
e minhas palavra não atingirão as vistas de vários.

Perguntas as quais não encontrarei respostas...
Não em poucas reflexões...

Observe bem, a arma, ela não existe de fato na vida de nossas famílias.
Mas ela existe no sentido ideológico e filosófico, sempre transformando a Mulher em submissa,
fazendo com que ela ache tudo isso muito natural.
E observe também face a do Homem, em incorporar o Deus patriarcal e inescrupuloso.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Terra de Sangue!

Como você não consegue enxergar?!
Essa terra aqui na verdade é sangue!
513 anos depois suas manchas ainda permanecem!

Entendam por favor que se voto mudasse alguma coisa era proibido!
Por isso estão contando uma piada de mal gosto, ao me obrigarem a ir votar.
Eles não merecem meu voto.
Ele vale muito mais do que um engravatado mentido a sabichão falando coisas engajadas sobre economia, que no fim das contas, dá na mesma.

Quando o povo perceber que isso ainda é uma ditadura maquiada de democracia,
aí sim, a terra vai rachar!
Aí sim darão todo valor merecido ao sangue que está espalhado nessa terra e ninguém ainda não consegue ver.



O pássaro do canto mais bonito é VOCÊ.

Nos tempos que eu era um passarinho mudo,
não conseguia cantar.
Só chorava,
baixinho.
E mesmo assim,
ninguém me ouvia.

Comecei a crescer.
Percebi que as jaulas estavam em todos os lugares,
mesmo que me mentissem sobre isso.
Pintavam lindos campos,
nas paredes de nossas jaulas,
para que nascêssemos,
crescêssemos,
e pensássemos, que éramos livres.
Mas a crítica à realidade me permitiu perceber,
que liberdade ainda é, infelizmente,
utópica.

Pessoas gananciosas,
embriagadas pelo poder,
queriam me roubar,
da maneira mais absurda possível:
me fazendo acreditar que eu faria o bem
vendendo a minha própria alma.

Sempre se gabavam de si mesmos,
e riam de mim, desde quando nasci.
Pois a beleza de corpo nunca foi minha virtude.
Chorava pras estrelas,
rogando que me transformassem em pavão.

Mergulhado em misantropia,
foi quando descobri
a verdadeira dádiva dos deuses:
o meu canto.

É somente no sofrimento,
que descobrimos do que somos capazes de fazer,
e até onde conseguimos chegar,
pra continuar sobrevivendo.

Este canto podia transformar tudo que é séptico,
em mel aos ouvidos,
e é claro,
sem perder o terror daquilo que é real.

Ele era meu dom.
Desde então comecei a transformar-me em canário.
Por mim mesmo,
para mim mesmo.
Ao ponto de que comecei a ser percebido até mesmo por aqueles que me odiavam.
E quem me amava, me invejou de início.
Não culpo eles,
culpo a triste realidade,
na qual estamos inseridos.

Não me sinto completo,
me sinto feliz.
Mas não se esqueça:
você pode comprar o mundo daqueles que o venderam,
mas depois do tédio, perceberás que a felicidade só é real quando compartilhada.

Espero que todos encontremos aquilo que nos faz pessoalmente felizes,
ou seja, em ser quem quisermos ser,
e poder dividir isso com a felicidade alheia.
Oh, como seria belo isso.



domingo, 16 de junho de 2013

A gota que faltava.






Eduardo Amuri por
em 15/06/2013 às 0:00 | Crônicas e contos, Mundo
Bêbado, de novo. Chegou tarde, cheirando a bordel. Tentou acordar a mulher às duas da madrugada, perguntou pela janta, pediu que estendesse a mesa. Ela não ouviu, embotada de sono. Resolveu despertá-la com um soco. Desferiu sem dó. Ouviu um choro ressentido, esqueceu da fome e dormiu. No dia seguinte, não foi trabalhar.


Semana passa e ela sempre perdoa. Capricha na maquiagem para disfarçar o hematoma. A rotina se repete por anos. Vamos tentar de novo, só mais uma vez, só mais uma vez.

Ela chega do trabalho cheia de planos. Queria contar das possibilidades que se abriram na empresa, queria ter alguém com quem se abrir. Ela tenta de coração, ele se faz de surdo e continua assistindo TV. Qualquer reprise é mais interessante do que essa ladainha. Há anos é assim, por que ela ainda não aprendeu?

Poucas horas depois ele quer sexo. Ela quer carinho. Esboça uma tentativa de beijo, afaga a nuca, sempre cuidadosa com a lingerie. Ele não liga. Tira a roupa, ele diz. Impotente, ela tira. Aqui não tem tapinha para dar um grau no tesão. É um sexo com gosto de surra.

Festa da família ele não vai. Casa de amigos ele não vai. Quem decide o programa é ele. Faltou dinheiro esse mês, ele vende a louça que ganharam no casamento. A cristaleira que ela amava tanto, presente de vó. Sem consulta, sem dor na consciência. Ela reclama, ele atira pratos na parede. Com um dos cacos, corta o braço dela. Ele achava graça em como a pele dela era frágil. Você é tão fraca, ele dizia.

Acordam juntos, ele vai tomar banho. Sai do chuveiro, deixa a toalha molhada em cima da cama e vai trabalhar. Toalha molhada. De novo. De costas para a cama, ele se veste. Ela pega o abajour de porcelana, silenciosamente. Pé ante pé. Golpeia-o na cabeça. Ele cai, desmaiado, e ela não se cansa de bater, enfurecida. Grita até perder a voz. A poça de sangue se forma, mas é coisa pouca perto do rio de mágoa que mora dentro dela.

No dia seguinte, a vizinhança inteira comenta:
“Maldita a mulher que mata o marido por conta de uma toalha molhada.”
“Maldito o povo que se revolta por conta de 20 centavos.”Fonte: http://papodehomem.com.br/a-gota-que-faltava/


sábado, 15 de junho de 2013

Anseios, anseios meus...

Eu não tenho intenções nem pretensões,
de nada com ninguém.
Apenas tenho um sonho louco.
De ser eu o criador de meus próprios valores.

Se ainda não desisti,
fui motivado por nada mais,
somente por isso.
Nem deuses,
nem mestres,
me motivaram...
Antes que qualquer um queira pensar assim,
já tirei a glória deles.
Ela me pertence,
mais que totalmente.

Como se é passível de entender,
sou um homem sem ambições.
Tenho eu apenas aspirações, anseios,
em ter um espírito mais elevado,
ao ponto de fazer rachar esses valores,
junto com a terra das ideias imutáveis,
de uma palavra que deveria ser proibida,
por eles absurdamente muito ditas,
as verdades.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sobre a beleza (d)à alma.


Esqueça essa beleza.
Tal virtude me agride.
As pérolas que colhi,
jogarei-as fora.
O ouro que me destes,
nada me traz de serventia.
Aquele diamante, não por favor,
simboliza profundo sofrimento,
para quem conhece a sua origem.

A sua beleza não tem nome,
nem formato,
nem padrão.

Não se trata de ser a mais bela,
ou de vencer em detrimento de outra.
Vença te a ti mesma!
Embeleze-se para ti mesma!

Pois o valor que tu se dá a ti mesma
é demasiado efêmero,
e sofre de tanta dolência, carência,
de alma quase é indigente,
de tanto que precisas de migalhas de olhos pobres
que não valorizam mais nada além do físico.

Então eu te digo:
És linda como és verdadeiramente!
Pois ao embelezar,
tu a ti mesma,
atropelando opiniões alheias,
já chamou sua própria alma pra dançar.
E não há nada mais louvável que isso!
Um sorriso, ela te dará.
E essa é a mais preciosa recompensa que existe.
Não pérolas, não ouro, nem joias.
Simplesmente isso.

Nunca se esqueça de quão linda és por dentro.
E se pensardes assim,
será mais bela ainda,
ao ponto de que beleza interna se transborde,
e derrame o mel em todo seu corpo.

Recorde-se sempre:

Os olhos enganam a beleza que os ouvidos podem sentir.


Conto: "Morte asséptica", por Bruno Cabral.



Seus olhos abrem e tudo que consegue enxergar é escuridão. Depois de tanto tempo acordando às duas da manhã é normal ter se habituado a despertar e não enxergar mais que seus dedos se movimentando lentamente. O carcereiro bate na cela entregando-lhe o café da manhã, antes que ele tenha tempo de fazer com que sua vista se acostume  ao faixo de luz que passa pelo espaço em que ele deposita a comida. Durante 14 anos John despeja café com leite, 6 bolachas e uma maçã pelo mesmo espaço na porta e resmunga o mesmo 'Bom Dia' sonolento de quem preferiria estar em qualquer outro lugar que não fosse enjaulado com aquele bando de animais. Este é todo o barulho que ele escutará nas próximas 5 ou 6 horas: o barulho dos pratos de plástico sendo depositados no fundo das celas e o 'Bom Dia' cada vez mais longínquo de John.



As Tvs ligam às 7 e os canais abertos mostram imagens de pessoas que ele conhece, não, reconhece. A apresentadora do programa de variedades, o jornalista dos noticiários matinais.... Ele possui uma rotina com eles: vê as informações rasas sobre economia mundial que lhe são passadas, consegue prever os comentários do jornalista sobre a corrida presidencial. Ele é republicano. Sabe dizer como fazer para que uma alface não fique murcha ou como limpar a tela de um computador mesmo sem nunca ter visto um. Computadores eram caros e pouco funcionais na época em que fora preso, brinquedos que só pessoas muito ricas podiam ter, vendidos entre os sorrisos amarelados de um Bill Gates ainda jovem, gritando por um futuro de revista em quadrinhos. Há 20 anos seria difícil imaginar que todos teriam computadores ou que seu futuro estivesse atrás das grades de uma prisão em Memphis.

A cela é aberta com um clique automatizado que mostra a hora do banho de sol. Simon se encaminha para fora da cela enquanto vê outros homens vestidos de azul se espreguiçando enquanto saem de seus quartos. Atravessam o corredor estreito ponteado por guardas aqui e ali, e antes de atravessar o portão passa pela primeira revista do dia; procuram por facas improvisadas, giletes ou qualquer outro objeto cortante, esperando achar algo que vá 'ferir a integridade física' de algum parceiro seu durante o banho de sol. Não há nada.

Atravessa o portão e entra na grande sala onde os outros presos já caminham de um lado a outro. O banho de sol não tem sol, na verdade nem fica do lado de fora é apenas outra cela, muito grande.Vai à parede do canto, a que faz desenhos de luz no chão, por entre as grades da grande sala. Deixa seus olhos se adaptarem à luz cortante que tenta o cegar. De lá enxerga um muro e um arame farpado em cima dele. Ri da puta ironia que é ter uma janela da qual só se enxerga uma parede de concreto cheia de musgos, Atrás dessa ele sabe que há mais duas, que formam o labirinto pelo qual ele entrou 19 anos atrás, em cada parede uma porta e em cada porta um alarme que soa ensurdecedor toda vez que um funcionário demora mais tempo que deveria para atravessá-la.

Dentro do salão observa pequenos grupos conversando sobre TV em geral, um fala esperançoso sobre cozinhar algo que viu no programa de variedades para seu filho e esposa, outro sobre o jogo de basquete desta noite entusiasmado, mas quando lembra que a vida no presídio de Memphis se encerra às 2 da tarde, horário em que todos se recolhem para suas celas para dormir todos se calam, como que lembrando que não estão em suas casas e portanto não podem escolher por suas próprias vontades. O grupo se dispersa rapidamente. Julian (latrocínio) acena de um banco improvisado chamando para que jogue pôquer com seus colegas, ele responde que seus cigarros acabaram e que não vai arriscar apostar um último maço.
Na porta próxima ao outro pavilhão pode observar alguns de seus companheiros se tatuando em rudimentares máquinas feitas com pedaços de canetas bic e elásticos, os presos esfregam as tinturas pretas na pele dos homens criando marcas permanentes: nomes de mulheres, desenhos mal traçados e tentativas de tribalismos, Simon não tem tatuagens, não por preconceitos, mas por não querer que sua pele fique marcada por algo que fez na cadeia, se algum dia conseguisse sair dali apagaria todos os rastros que o fizeram perder metade de sua vida naquele lugar. David (sequestro) ignora a dor como se pudesse passar o dia todo tendo uma agulha perfurando sua carne, ele escreve o nome da filha embaixo de uma rosa já de traçados verdes.
Todos deixam o banho de sol pontualmente ao meio dia para acompanhar com o entusiasmo de um jogo da liga de baseball à entrevista com o novo candidato à presidência, ouviram dizer que ele era contra a pena de morte. Simon ouve suas propostas para transporte, segurança, economia e educação enquanto espera que aquele homem diga que é contra o corredor, na esperança de que aquele desconhecido metido num alinhado terno azul possa tranquilizar sua conscência a ponto de conseguir dormir, atividade desconhecida desde a última terça-feira quando sua apelação foi negada e ele foi condenado à injeção letal.


Ele percorre o caminho labiríntico com uma leve mochila nas costas. Uma escova de dentes gasta, uma revista de sacanagem, uma roupa sobressalente e os velhos tênis que já não cabem em seus pés há muitos anos. O portão estala e ele vê John, o funcionário que serviu sua comida por todos esses anos chegando para trabalhar, ele lhe dá um sorriso incerto, um desses sorrisos de quem não está exatamente acostumado à demonstrar felicidade; John demora para notar que o homem vestido de forma básica é.... como é mesmo o nome dele? 897. É 897, graças a aquele maldito liberalista mais um assassino era solto agora. Que ele coma a filha do presidente, ou assalte um banco agora que pode, pensa carrancudo enquanto passa pelo portão de aço que se fecha atrás de si.
Não há mais ninguém ali, Simon agora é um homem livre, embora não saiba o que fazer com sua liberdade.
Ele pega um ônibus e salta no centro da cidade, faróis automotizados fazem com que o trajeto seja lento. Ele caminha até um café e faz um pedido. Sua caneca vêm acompanhada com a porção de torradas e uma dessas manteigas individuais e uma faca à esquerda do prato. Simon sinaliza para que a garçonete se aproxime, uma moça dócil. De sorrisos fáceis, ela o chama de grandalhão enquanto enche a caneca de café novamente.

Na pequena pensão Simon acorda subtamente, ele dormiu escostado na parede virado para porta e espera John depositar seu café da manhã no buraco da porta quando percebe que não está mais na cadeia. Vira para a janela e percebe que ainda é escuro. Nos últimos dias tem acordado entre 4 e 10 da manhã, nunca vai conseguir se acostumar com essa merda de horário. Não se esforça em dormir mais um pouco, não vai conseguir. Levanta-se e pega o casaco para dar uma volta. Acende a luz e fita o relógio marcando 3 da madrugada. Ótimo, estou ainda mais desrregulado – ele pensa.
Só deve entrar no trabalho arrumado pela assistência do governo às 8, por isso continua andando sem nenhum rumo certo. Não dá pra se encaminhar a lugares que não se conhece. Ele não pode visitar ninguém esse horário, não que haja alguém que ele pudesse encontrar. As pessoas seguiram em frente, ele deu uma pausa e só conseguiu voltar agora, não há ninguém esperando por ele. Encontra um bar com uma mulher gorda e entediada no balcão. Tem um ar antigo, um lugar com mesas ainda em madeira, nada desse plástico em diferentes cores que os jovens gostam, o chiado do velho rádio mal deixa perceber a voz de veludo do Elvis cantando qualquer coisa sobre amor. No bloquinho ela anota o café que ele pede. No presídio só serviam café com leite e ele se pega sorrindo da possibilidade de poder tomar um café puro.

Ele não dorme e seu coração bate mais forte à medida em que percebe os minutos avançando. A percepção do tempo correndo é quase física. Revirar-se na cama que range não ajuda o tempo a passar e seus exercícios para manter a mente vazia não ajudam muito. O baque do prato caindo no fundo da cela o desperta de seus pensamentos e ele não sabe dizer se esteve sonhando que estava acordado ou se tinha perdido a razão enquanto acordado e passava apenas a existir. A TV não lhe traz nada de novo, a mesma apresentadora vai lhes ensinar hoje a limpar telas de computadores. Como as pessoas não percebem que essa mulher está esse tempo todo falando sobre as mesmas coisas? Não sei. A previsão do tempo indica mais um dia ensolarado no verão americano, “Uma sexta-feira pra sair e fazer um picnic com a família.”. Os americanos não são mais uma nação de picnics, moça. Não se toma mais coca-cola em parques, o vendedor de cachorros quentes tem uma arma pra esmagar os seus miolos na gaveta em que guarda o ketchup e a mostarda se você tentar roubá-lo e sua família está ocupada demais fazendo dinheiro para dar passeios ao ar livre.

As celas se abrem e ele não quer sair, não consegue entender a diferença entre andar em circulos numa cela grande ou em ficar sozinho na sua, mas ele não tem escolha, sai para revista. Braços abertos, pernas abertas, a mão do guarda entra num dos bolsos do macacão azul e vai mais fundo, mais fundo, procurando objetos cortantes que possam... foda-se não há nada. Não há nada. Todos o olham estranho quando ele entra na sala e parecem querer dizer palavras que o animem, mas não existem consolos para uma morte programada. Julian pergunta sobre o pôquer, ele não tem cigarros. “Você pode pagar amanhã”- ele responde sem nenhum sinal de rubor. Vem agindo assim nas últimas semanas porque não consegue lidar com a imprevisibilidade que corta a rotina que têm há anos. Acordar, ver TV, café, banho de sol, dormir. O sol brilha alto indiferente ao fato da iminente morte de Simon, e ele ri, ri porque Hollywood o ensinou que sempre que as pessoas morrem há chuva. Uma chuva fina, que envolve a alma das pessoas em um humor pessimista. Que há uma chuva fina que impede o dia de brilhar e ensina às pessoas que quando alguém morre deve haver alguma espécie de luto, mas isso não é verdade e o sol continua a criar os desenhos no chão da sua cela. A percepção de tempo se esvaindo o pega novamente num ataque de pânico e ele sente vontade de gritar, de brigar com os carceireros, de enfiar uma faca na própria garganta a fim de provar que só ele pode escolher o horário em que morre. Mas não toma nenhuma dessas atitudes, apenas imagina como seria se as tomasse, como que respirando fundo, arranjando fôlego pra estar por mais algumas horas. Na saída da ampla cela David fita em seus olhos uma expressão melancólica, um aviso de que gostaria de poder ajudá-lo por entre o rosto esverdeado de quem não tem passado bem últimamente. Náuseas, febre, vômito, sinais de uma hepatite pega em um procedimento sem esterilização que o levará à morte ao mesmo meio-dia da semana que vem. E que teve início quando resolveu homenagiar a filha na tatuagem abaixo da rosa grafada em seu braço esquerdo.

A sala de espera está vazia e só o barulho do relógio no corredor cor de creme habita seus pensamentos, poderia rever sua vida, fazer uma retrospetiva das coisas boas que viveu, e se lembra de muitos acontecimentos, eventos demais. Ficar todo esse tempo longe do mundo tirou dele a capacidade de saber o que realmente são lembranças e o que não passam de falsas memórias.

John limpa o chão do corredor da morte com um esfregão velho, presídios não costumam receber muita verba. Faltam 10 min para que se encerre seu dia de trabalho. A limpeza dessa ala é sua última tarefa, ele usa o esfregão com pouca força, a ala nunca foi usada de verdade e no chão paira pó de falta de uso, varrendo perto da porta metalizada ele escuta o baque e o grito de alguém dentro da sala. Aproxima-se e vê dois guardas domando o homem que foi o primeiro condenado à morte da
prisão de Memphis em mais de 37 anos. Simon é seu nome talvez, ele é amarrado na cadeira e implora para que não façam isso. O médico aplica a injeção no braço do homem de 40 e poucos anos que aos poucos desiste da vida. John olha para a sala onde ninguém parece feliz em retirar mais um “mal elemento da sociedade”. O relógio mostra 14:01, mas John apesar de com o expediente no fim não consegue mover os pés para fora do presídio que embora apresente um homem recém-falecido do outro lado da porta de metal já exala um cheiro de morte nauseante. Cheiro de morte asséptica.

Fonte: http://www.cafeeanalgesicos.com.br/2012/09/conto-morte-aceptica.html

Devires

Sou força pela manhã,
após a tempestade.
sou lágrimas dos anjos enfurecidos.
Fera onde não há luz
Sou a calma quando o vento chama o mar pra dançar.

Minha alma está híbrida,
em metamorfose,
atravessando o espaço e tempo sem fissuras.
Ela é uma fortaleza armada
e um perigo iminente ao destino
na maneira em que ele quer se apresentar

O que antes era um fantasma aterrador
Hoje se transforma em bom companheiro.

De que serve aquele que só vive em nostalgia?
O passado, tem sua importância,
para lembrarmos de quem nos tornamos
e não nos permitirmos sucumbir novamente.

Que saudade sinto do futuro!
daquilo que é incerto,
e que de nossas maneiras buscamos ordenar
os vindouros da vida,
e aos bons encontros que viverei.

Eu pensei,
não,
melhor,
eu penso,
eu estou pensando,
assim contemplo toda a magnitude do infinito.
Pois o tempo para mim,
é um mero ilusionista.

Eu penso e te digo,
olhe nos meu olhos.
...
Verás que ainda me resta a pureza original.
Verás toda a onipotência do resplendor do amanha,
emanando-nos vontade de viver.
Verás esperança até num brotinho nascendo meio ao concreto.
Verás o amor em essência.

Na verdade, não há palavras para descrever isso.
São elas tão desnecessárias neste momento,
pois os sentimentos estão além delas,
acima da flor da pele
da carne que treme
que sangra
transcendendo a chama.

Porque tantas rosas em meu caminho,
se ele é sozinho?
A Fênix mandou seu sinal,
ressurgir, é sua palavra.
E agora é dado a hora
de transformar toda essas cinzas
em cores vivas novamente.

Por favor,
transformem meu coração,
na morada
do caos.

Um novo caminho, uma nova mente.


Apesar de,
ter eu me ausentado durante tanto tempo,
resolvi aproveitar este novo horizonte que está à minha vista,
e então, reformei ele, pois acho que as ideias não morreram,
pelo contrário, amadureceram.
Adaptei ele ao meu "Eu" amorfo de agora (Se é que isso é possível...)

Dei também, um novo nome a essa minha criação:
Morte Asséptica.
Mas na verdade, seria uma Morte AO Asséptico;
A todas essas ideias maquiadas de como ser, pensar e agir;
ÁS vaidades de espírito,
que só nos diminui como ser;
AO valor da beleza como virtude,
e não somente esse tipo de valor,
como também qualquer tipo de valor imposto através da coerção.

Enfim,
quero fazer disso um espaço onde finalmente possamos exercer nosso pensamento,
da maneira que ele deve ser exercido,
com criticidade,
que espero que seja preservada e elevada a um nível tão estremo
que seja capaz de te mexer,
e mostrar os novos horizontes por mim tão almejados.

Venham de coração na mão,
abertos aos doces ventos do Caos.

Poderá a imaginação,
um dia,
atingir o inatingível?
Acredito que sim...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CUIDADO, ABISMO ABAIXO!

"Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." Friedrich Nietzsche



Eu acredito que algo que foi escrito,
jamais deverá ser apagado,
pois as palavras são materializações de sentimentos.
É claro que esses sentimentos podem se mesclar ou não com a racionalidade.

Embora estou reformulando meus temas e minhas ideias,
não quis apagar as anteriores,
elas ficaram aí, para os quais querem ver,
até para mim mesmo, apesar do perigo disso.

Mas como o tempo é intempestivo,
Nada que é, é,
e tudo, só uma coisa é,
sempre mutável.
E eu vivo outras coisas agora,
e coisas que ainda viverei também.

CUIDADO!

São elas de extremo pessimismo e niilismo,
de um tempo de Trevas na minha vida:
O Abismo está aí, logo abaixo.

Se procuras o Abismo,
o Abismo virá até você.