domingo, 10 de janeiro de 2021

O moribundo.


Lentamente apodreço...
Porém, de forma indigna.
Sem paz em vida.
Agonizando a cada esquina.

Ainda assim hei de alimentar-vos,
e aos que me amaldiçoaram,
Um 'Deus-lhe-pague' bem pagado.

Sinto a luz diminuir,
sinto o fogo a falhar.
Olhei para o pulso,
o meu relogio não tinha números.
Mas pulsa...
Pulsa seus ponteiros...
Pulsa o sangue de minhas arterias...
Pulsa lático que me assola
E latem os cães do inimigo.

A mão do mestre em minha cabeça.
Mas eu sou um bom garoto...
E com certeza me darão
os ossos dos meus irmãos.
Comerei suas migalhas com alegria.

Como serei grande sem nome?
Em meio a grades de fibras.
Atrapado pela trapaça do destino.
E o caminho do meu drama,
a tragédia da trama,
partirei sem seu fim?

Fiz promessas e não cumpri.
Jurei amores e errei.
Um dia, enfim só,
o mundo se esquecerá de mim.
À quem me dediquei?
Velho, vegetal e patético.
Numa noite (in)feliz...

Ando divagando nessa mesma cidade,
decrépita e de sonhos suspendidos,
sonhos suspensos nas nuvens.
Cidade de amores inacabados.
Que vive de um saudosismo esdrúxulo,
de um passado tão remoto quanto nossos dias de glória.
Sei que morrerei nessas ruas imundas,
tentando ensinar coisas bonitas...
Palavras, afegos, ternura, empatias:
a escola que eu não tive.

Lembrei-me de quando fui alguém:
e por incrível que pareça,
me sentia melhor,
mais forte,
pois tinha você ao meu lado.

E neste agora sem você,
carne, sangue e suspiros virando cinzas,
de não sei que alquimia se faz um final
para que nada nunca acabe. 



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